18/07/2011

ENTERRO DE ELEFANTES E OUTROS BICHOS GRANDES

uruguai time  Uruguai, um país chiquitito comparado à Argentina. O território é vinte vezes menor. A população de uruguaios é dez por cento a de argentinos. Dentro de campo, porém, são onze para cada lado e ponto. No futebol o Uruguai não tem inferioridade proporcional às suas dimensões. Basta ver o empate de títulos: 14 Copas América para cada país; 2 Copas do Mundo para cada seleção; 2 Olimpíadas para cada nação.

No jogo deste sábado se viu mais uma vez que o pequeno hermano não se intimida diante do irmãozão. Foi 1x1 no tempo regulamentar, 0x0 na prorrogação e, durante todo o jogo, mesmo com um jogador a menos, Uruguai parecia maioria, parecia maior, parecia urgente. Um gigante.

Eis o fator que sempre desequilibra: a raça (conhecida como “alma castelhana”). Jogadores que “ponen todo en la cancha”, regidos por um maestro, levaram o jogo aos pênaltis em favor do Uruguai, numa típica superioridade de espírito e de grupo.

Raça, o hormônio do crescimento. o elixir do heroísmo.

Foi assim que a celeste olímpica em 16 de julho sepultou definitivamente o elefante argentino num estádio de maus presságios, já apelidado de “cemitério”. Um Elefantazo.

messi chorando

E foi com o truque da raça que – também num 16 de julho – Uruguai enterrou o Brasil na final da nossa primeira Copa em casa, em 50. Davi contra Golias. O Maracanazo.

Nelson Rodrigues disse sobre Obdulio Varela, o capitão uruguaio em 50: “ele não ata as chuteiras com cordões, mas com as veias”.

E numa entrevista à Placar, o capitão confirmou o segredo: “O bonito não ganha jogo. Para ganhar é preciso luta, garra. O grito bem dado é um jogador a mais dentro de campo”.

Tiremos a lição. Raça faz as coisas pequenas ficarem grandiosas. Faz um time de onze parecer um exército de milhares. A raça é o verdadeiro craque.

De que adianta nascer gigante? O Brasil tem 8,5 milhões de km de território; quase 200 milhões de habitantes – e onze deles de salto alto num campo de areia fofa. Era o que bastava para um Canarinho grandão virar passarinhada deglutida por bicho pequeno com um pouco de farofa. Pato, ganso, um tucano novo com bico muito grande, gazelas saltitantes e outras aves de plumagem duvidosa, tipo corvo ou gavião. Tudo na panela com sabor indigesto para nós que torcíamos. Onde anda a pátria de chuteiras?

brasil seleçao

Elefantazo. Maracanazo. Brasil e Argentina e seus pesos pesados. Eu admiro (e invejo) os uruguaios. Gostaria que o futebol brasileiro tivesse menos graça e mais raça. Raça é o bicho.  

A raça é um gigante escondido dentro de cada um.uruguai penalty

23/06/2011

FERVURA EXISTENCIAL

vulcao É assim. Um dia você acorda com um mal estar, um aquecimento por dentro, gases e, de repente, puf! - explode. Normal. É o ápice de um processo de reequilíbrio. Elimina-se o conteúdo repentinamente desordenado e as coisas voltam à santa paz de antes.

A natureza sempre busca o equilíbrio, não seria diferente com o vulcão. Dentro da terra há um magma fervendo em calor absoluto - a superfície que habitamos é apenas uma crostinha, não se engane com a segurança do chão onde pisa. Eis então que o magma ferveu mais, e mais, e liberou gases, e procurou saída, algum buraquinho - tal como o corpo humano faz para expulsar seus desagrados – e veio a erupção em forma de lava, cinzas e poluição espontânea.

Hoje estamos, cof, cof, cof, respirando essa fumaça impactante e nos intoxicando de reflexões bobas a respeito da existência. Fervemos a mídia e nossas cabeças com questionamentos abismados, como se os desastres naturais fossem coisa contemporânea, moda nova do planeta, alguma revolta dos Deuses. Geeeente, é simplesmente a Terra se reordenando normalmente, como faz há quatro bilhões de anos! O ego humano é que tem dificuldade de aceitar que nós, os seres inteligentes, não passamos de insignificantes grãos de areia no deserto.

É duro saber que não podemos tampar um vulcão com o dedo, nem segurar com a mão os terremotos, não é mesmo? Nossa característica auto-centrada tende sempre a achar que estamos no epicentro do controle, lá em cima da torre de comando do globo - tsc, tsc, tsc, pretensão tola... Então de repente vem a força da natureza mostrar quem é que manda no campinho. E daí ficamos meio abobados, aquela cara de “ah é, é?...”

A verdade é que o ego crê que somos atores principais quando somos meros figurantes do planeta. Mais precisamente, hóspedes. Estamos aqui de passagem, como já estiveram os Dinossauros e outras espécies de vida sobre a terra. Ora, o Homem habita esse planeta há apenas 30 mil anos (contando desde os caras da pedra lascada), enquanto os Dinossauros, por exemplo, perduraram por quase 200 milhões de anos. Ou seja, nesse albergue chamado Terra, somos visitantes de um final de semana, perto dos dinossauros. O planeta é um hotel rotativo, com critérios naturalmente competitivos para o rodízio.

Eventos que não estão sob o controle humano ocorreram e ocorrerão naturalmente, trazendo novas espécies de vida adaptáveis. Sabe-se de pelo menos cinco extinções em massa na Terra, a última delas acabou com os Dinossauros, e isso já foi há 65 milhões de anos. Calcula-se que a Terra terá condições naturais de suportar vida por mais uns 500 milhões, sabe-se lá se seremos nós os hóspedes até lá.

Não precisamos ter pressa, mas é sempre bom lembrar ao ego que estamos de passagem. Então a sabedoria é viver o momento presente, a nossa vez, em estado de relax - como uma temporada de férias. E aproveitar com alegria o nosso tempo sobre a Terra, antes que cheguem os meteoros e não reste nenhum poderoso ser humano de pé para, sabe como é, dar um peteleco no interruptor e apagar a luz - do sol.terra e meteoro     

03/06/2011

Arriba, Peña !!!

Não é só porque o namorido é uruguaio e torce pelo Peñarol, o que fazemos juntos desde que meu Grêmio ficou pelo caminho – e, ora bolas, no inverno faz toda diferença um casal torcer pelo mesmo time sob as cobertas. Essa circunstância por óbvio fortalece minha convicção. Mas tem também o merecimento da equipe, aliado à natural proteção dos mais fracos, que alivia a alma considerando que futebol é cada vez mais um business de cifra grande, com bolão pra cá, bolão pra lá - no bolso de dirigentes e atravessadores que não jogam um ovo.

 

Peñarol tem limitações técnicas, todos sabem, mas o time nunca disse ser mais do que é. Tem um pacto com a torcida do tipo “somos o que somos, se quiserem torcer assim mesmo, vamos dar o nosso melhor”. Peñarol é exatamente isso que apresenta, e vem chegando talvez com a mesma modéstia com que chegaram os uruguaios ao Maracanã na Copa de 50, despacito no más.

E como se não bastasse, além da humildade, coragem e garra, Peñarol ainda tem o gênio Alejandro Martinuccio, que é tudo-o-que-eu-queria-ser-quando-crescer (na carreira sênior do futebol amador feminino do Roda Sociedad, entenda-se) - isso se não der para ser cartola, para não suar tanto, sabe como é.

Por fim, guiando minha torcida pelo Peña ainda tem a causa humanitária, de socialização da glória. Assim como torço para que não se acumule a Mega Sena em mais de 10 milhões para que outras pessoas tenham o sabor da sorte grande, acho que Santos já teve demais. Alcançou a marca dos 10 mil gols, pariu Pelé, lançou Robinho, criou Neymar. Agora é hora do Peñarol, depois de 24 anos sem esse título, colocar a mão na Taça e comemorar o renascimento.


Pode ser problema de visão turva, mas acho que vi uma zebra preta-e-amarela caminhando despacito por aí...






30/05/2011

Novidades

Quando comecei este Blog, em abril de 2010, foi em razão do livro que eu lançava, o Par e Ímpar - alegria que compartilhei como uma mãe anunciando que seu bebê rosadinho nasceu. Também por reconhecer que o espaço virtual é o novo léxico universal, e o ditado dos novos tempos poderia ser “quem tem web vai à Roma - se não preferir ir a qualquer outro lugar”. Nem precisa mais ter boca, os dedos e uma boa conexão banda larga assumiram importância superior.

Contudo, reconheço que cresci em outros tempos. Por mais que eu domine os recursos básicos da era virtual, sou da época em que se gritava bem alto ao telefone para ter certeza de que o namorado lá na suíça escutaria. Não tenho vergonha de parecer arcaica, nem entro correndo na fila toda moderninha para comprar o novo Ipad2. Por outro lado, tampouco preservo o videocassete na sala nem choro de saudade do carburador. Nem lá nem cá.

Acho lindo o mundo evoluir tecnologicamente. E invenções boas são para ser usufruídas mesmo. Não por isso vou esconder que fiz cursinho de datilografia em 1980 porque era um diferencial competitivo saber “bater à máquina” com destreza - ora vejam.

Estou apenas constatando que novidades me surpreendem e mobilizam ao mesmo tempo. E também assumo que não sou lá muito rápida em recolher o queixo caído. Até hoje avião me espanta. Como pode um troço tão pesado levantar vôo como passarinho. Às vezes fico anos contemplando novas tecnologias até acreditar que – eureca! - elas funcionam. E naturalmente me atrapalho para usá-las com eficiência plena. Mas tento. Tento até cansar, porque o esforço de aprender, de adaptar-se, é tarefa do usuário.

Isso tudo para contar que passei um final de semana inteiro fuçando na web para inserir neste Blog um gadget de Boletim Informativo! Claro, não me servia qualquer modelo. Procurei um gerenciável por e-mail e que cadastre somente quem tiver interesse em receber atualizações do Blog, Deus me livre o Bicho sair por aí disparando coisas sem consentimento - que tecnologia tudo bem, mas desobediência da máquina ao dono é rebelião.

Então quem quiser se inscrever, adelante! Cadastre seu e-mail e receba os posts diretamente da boca do Bicho!

Beijokas com k, tipo pós-moderna.

18/05/2011

Seguro Auto Mulher – "porque elas tem um jeito próprio de ser"


É fato medido e constatado: elas colidem menos.
Por isso o seguro de automóvel para motoristas mulheres é mais barato que para o sexo masculino. Não importa que elas não usem o pisca-pisca e parem o trânsito para estacionar em amplas vagas. Ou que virem a cabeça e o tronco inteiro em vez de apenas olharem pelo retrovisor. Tampouco importa que insultem histericamente quando deveriam pedir desculpas. Que atropelem cones e outros obstáculos neutros como pedras e calçadas. Que chorem ao volante quando se perdem. E abanem para o pardal retocando batom pelo espelhinho. Não importa. As idiossincrasias femininas não contam nas estatísticas do seguro. O que importa para os contratos de seguro é o quanto as mulheres usam suas apólices, e nisso somos muito comedidas, resultando num bom desconto em geral.

Nosso comportamento de risco no volante é baixo, dizem as tabelas atuariais. Nossos problemas são outros. Por isso, foi bem oportuna a leitura de mercado feita por uma Seguradora brasileira recentemente. Recebi mala-direta anunciando um Seguro Auto Mulher – porque você tem um jeito próprio de ser, com “serviços exclusivos para suas necessidades, assim você fica protegida e evita aborrecimentos”.

Além da cobertura contra furto, roubo e danos, são oferecidas garantias inéditas como a troca de pneu (detalhe: sem limite de utilização), o acompanhamento até a delegacia, a isenção de franquia na primeira batidinha e – tchan, tchan tchan tchan – um Motorista Amigo para levar você e seu carro para casa após a meia-noite! Uau, nossos problemas estão resolvidos.

Faltou a publicidade esclarecer se o sujeito acompanhante é tecnicamente preparado. Significa dizer: se tem formação em psicologia e primeiros-socorrros. Convenhamos, acompanhar mulher sozinha em condições ideais de temperatura e pressão já não é tarefa simples, imagine depois da meia-noite. Vá saber o quanto o Motorista Amigo terá de ouvir, suportar, administrar. Uma rápida lista de suposições me veio à cabeça e concluí que pode ser mais complicado que colidir de frente contra jamanta.

Pense na situação: passa da meia-noite, a carruagem já virou abóbora. A moça segurada está sozinha e o Motorista Amigo é chamado para ir ao local acompanhá-la de volta ao lar. Tudo limpo até aí. Então começam os “es”: e... se a mulher estiver saindo de uma festa onde pegou o namorado cantando uma loirona vestida de Sabrina Sato? E se a infeliz ainda está em TPM? E se além disso for noite de lua cheia e véspera de seu aniversário? E se mandar o Motorista Amigo dar um cavalo de pau e estacionar em frente ao bar para acertar as contas com o cretino? E se – muito pior – pedir que rume para casa enquanto desabafa pelos próximos 50 km, hein? E se ela tomou umas vodkas russas (o soro da verdade) e está a fim de discutir, divagar e divulgar a relação? (Um DDDR básico), hein, hein? E se ela ainda por cima quiser saber a opinião do sujeito acompanhante?.. E...

Céus, fico calculando a relação de riscos e danos. Se o Motorista Amigo não estiver devidamente preparado para esse serviço opcional, irão por água abaixo nossos descontos especiais no seguro. O cara certamente ficará atordoado e baterá o carro violentamente contra um poste, com perda total - afinal, o Motorista Amigo é um homem no volante.






08/05/2011

Manhêêê

Há o tempo em que basta gritar manhê e a dificuldade fica instantaneamente resolvida: uma mão rápida para levantar, curativo na coxa, nescau quente de manhã, aquela brincadeirinha para aliviar a frustração, revisão antes da prova, beijinho de boa noite, essas coisas de mãe. Mãe atende a pedidos de socorro como se fosse garçom de bandeja na mão. Os 10% de gorjeta são contingenciais: só o fato de ser mãe quita a existência e gratifica as horas-extra. Ver o sorriso de uma criança, a felicidade do seu pimpolho, ah, esquece, isso nem o master card paga.


Aí um belo dia os filhos crescem e os pedidos ficam um pouco mais complexos: um aval no crediário, alguns importantes conselhos, o ombro amigo na hora das desilusões, aquele estímulo convicto do tipo ninguém é melhor do que você, meu filho, uma ajuda na escolha do vestido, na decoração da casa, na arrumação da mala, na mudança. Mãe passa a ser um cheque especial: está ali para quando você precisar, conte com ela. Os juros não serão cobrados. Acompanhar o crescimento e a realização de um filho remunera a alma.


Lá pelas tantas a gente também vira mãe (ou pai) e o socorro vem de outro jeito: mãe quebra um galho como baby-sitter adocicada dos netos, professora de temas aleatórios, conselheira catedrática, vira amiga, companheira, vizinha, guarda segredos. E ainda rola um cafuné. Mãe é mais torcedora do que técnica, é mais carta na manga do que número de mágica, fica na contemplação, na retaguarda, de reserva na casamata: você tem meu número, se precisar liga.

Então chega, ao fim, o dia em que mãe vira lembrança: não pode mais ser abraçada, não prepara a ceia de natal, não troca idéias, não aparece no domingo, não assopra pelo telefone aquela receita de doce, não segura mais a barra. A vida deixa de ser tão fácil e garantida, e nem tem a mesma graça. Não dá para gritar manhêêê como se gostaria, mas você pode senti-la. Você sabe o que ela diria nessa e naquela hora.  O DNA dela está ali, impregnado - dá para saber que mãe você teve só pelo seu jeito de sorrir, pelo tom que lhe soa um choro de bebê nos ouvidos. Você a tem. Ela não está ao alcance da mão porque está inteiramente dentro de você.

05/05/2011

Meio de Campo












Dois corações é ter um filho fanaticamente-colorado e um namorado uruguayo-peñarol.
Dois corações partidos é sabê-los assistindo o mesmo jogo, torcendo igual, vibrantes,
em sentidos diferentes.
É sentir-me uma bola pulando de um lado para o outro e não encontrar goleira que acolha simultaneamente meus dois amores. Fico sentada de mãos atadas entre opostos.

Ah, como é difícil assistir a vida da arquibancada.



02/05/2011

Pensamento da semana

"Nesses últimos dias, o mundo está parecendo jogo de xadrez:

sexta-feira só se falava no rei e na rainha; no domingo beatificaram o bispo; depois, deram xeque-mate em quem derrubou as duas torres...  E eu, aqui, de peão, trabalhando que nem um cavalo."   (Anônimo)  

rainha

29/04/2011

E o beijo???

Acordei cedo, como faço normalmente para levar filhos à escola e, óbvio, logo às 6h já fui espiar o casamento do principezinho Guilherme e sua linda gata borralheira. Quando vi, lá estava eu de olhos grudados nos detalhes da cerimônia, bem como a gente faz na noite de entrega do Oscar: malhamos, mas assistimos.

Bem, o casamento não foi assim um show de Paul McCartney, mas tava interessante de ver. Eu diria que foi o segundo casamento do século (o primeiro foi o do Shrek, na minha subversiva opinião).

Era só pra espiar, mas deu vontade de encarnar a colunista social e fazer uma cobertura ácida do evento. Então fiquei atrás de gafes, breguices e excentricidades, mas me rendi a um casamento bonito e até normal, não fosse a quantidade de protocolos invioláveis. Nada de tropeços na entrada da igreja, nem chuva de pétalas vermelhas. Necas de beijo de língua na sacada do castelo. Nada que pudesse ser mal falado, nada, nada, nada. Vamos aos fatos:

A abadia de Westminster estava lindíssima e tropical - plantaram árvores verdejantes ao longo das naves laterais. Surreal! As crianças estudaram impecavelmente os cânticos e receberam no rosto pó compacto para aspecto de anjos.

 
Lady Kate, como sempre, very very beautiful. Gorgeous, para ser mais justa. Essa tem pinta de princesa. Entrou e saiu confiante, o que a deixou mais bonita. Ele, de uniforme militar, não chegou a comprometer a beleza da parceira. Nem sua calvície. Afinal, ela também tinha olheiras (hihihi, a dor de cotovelo).

Os vestidinhos das convidadas de forma geral estavam como a comida na Inglaterra, meio sem graça, mas os chapéus... hum, os chapéus! Divertidos, apetitosos. Tinha chapéu de laço gigante apoiado no nariz, chapéu da Cruela Devil, chapéu de três pontas, e por aí foi. Até o bispo de Londres portava um gorro em pink moderníssimo! E a mulher do primeiro ministro inglês foi a única sem chapéu. Glup, gafe de convidado. Ah, e eu percebi: na cabeça fria de Kate, depois de toda aquela polêmica com a sogra, não havia as desejadas flores enfeitando o cabelo, mas sim a tiara de diamantes emprestada da rainha Elizabeth, que Camila Parker-Bowles ainda tem autoridade, ora bolas. Mesmo tendo sido a garota-tampax nos tempos de juventude.

No trajeto de carruagem pelas ruas até o palácio de Buckingham, os cavalos se engalfinhavam, mas o casal seguiu descontraído, abananando e sorrindo como manda o protocolo. Nada de ficar de pé na carruagem como eu faria, assobiando para o povo. Nem movimentos efusivos com braços estendidos, nãnaninanã. A mão abanava discretamente como previsto no manual real: 10cm de distância do queixo, medido a partir do dedo médio, em movimentos semi circulares. Perfeito. Irretocável.

Ao final do show, pensa que teve cena insinuante na sacada? Nãnaninanã. Uma micro bitoca de 2 (dois!)segundos e era isso. E o noivo nem limpou com a mão como um resto de catchup no canto da boca. Afe, realeza não dá o que falar. Mas tinham milhares de pessoas se acotovelando em volta do castelo para assistir a um beijo mais humano, vamos dizer. Então, na falta de outro fato mais picante, classifico este como gafe, pronto. Foi um beijo excessivamente protocolar. Insuficiente. Frio, frio, frio. De plástico.

Tá certo que não estavam sozinhos na cena íntima. Pensando bem, eu também morreria de medo daquela Rainha em pele de pintinho amarelinho ao lado, com seu olhar crítico fuzilante, britanicamente pontual. Ei, psiu, pega o lenço que caiu no chão, aqui entre nós: a coroa é assustadora.



















23/04/2011

Coelho da Páscoa não existe

leaofechandoos olhos

Que saudade do tempo em que eu era um pingüim!

Naquele trabalhinho da 2ª série estava respondido em garatujas, mas parecia sério: “Com que animais sua mãe se parece? Minha mãe é um pingüim porque me esquenta muito; ela também é um tigre porque é braba e corre bem; é uma coruja porque me cuida quando estou dormindo. E é um polvo porque me abraça demais.” Guardei a prova para quando minha filha ficasse maior e me visse com outros olhos.

Pois o tempo passou e – bingo! - hoje em dia sou um típico jumento, às vezes uma víbora, na maioria das ocasiões, ameba. É isso mesmo, a adolescência chegou à minha casa. Aos poucos se adota um dialeto estranho, do tipo “quem mocou meu tênis na tulha”? Ou: “não pilho de jantar agora” e, confesso, eu mesma me pego exclamando “alcança esse bagulho aí” (comunicação é a lei da selva). O habitat em casa está visivelmente diferente: skates pelo chão, rock em alto volume (veja bem, não estou falando de Mozart), e pizza de manhã. Uma selvageria.

Mas eu seria uma anta se achasse que está tudo errado. Lembro bem de quando completei treze anos e troquei a foto dos meus pais do porta-retrato: coloquei minha adorável hamster Bianca. Uma pequena atualização nos referenciais (oh, mundo cão, eu não sabia que meu dia também chegaria!). Fui mais espírito de porco ainda: pendurei um pôster dos roqueiros malucos do ACDC na porta de fora do meu quarto. Era o mesmo que uma placa de “Não Entre”, apenas ilustrada. Quem duvida da clareza do recado? Nunca entre. Nem batendo antes.

Eu sei como funciona a fase adolescente e não chego a me assustar, porque ela passa. (A propósito, tem vezes que dá vontade de ser um camaleão, mimetizar uma bromélia de sombra e ficar bem quietinha, esperando a adolescência ir embora).

Sábia e rápida é a mãe-salmão, eu vi no National Geographic Channel: põe seus ovos sobre um ninho de pedregulhos e, em ato contínuo, recosta-se docemente para morrer no fundo do mar. Ali termina a missão da mãe-salmão, logo no início da maternidade. Ela não fica para ver seus filhos recusarem um beijo de manhã ou para ouvir-lhes sentenciar que sua técnica de subir a correnteza já está ultrapassada há mais de um século. Como não sou espécie assim evoluída, ainda opto com alegria pela maternidade italiana tradicional: filhos sentados em bando à mesa, todos falando ao mesmo tempo, e de boca cheia.

Tem muita coisa “animal” na adolescência. Mas o que me choca nessa ebulição de hormônios é a inversão abrupta das referências dos pais-heróis: o forte tigre de repente vira um moscão tonto e não há muito o que fazer a respeito. Adultos não sabem das coisas e não fazem parte da matilha. Menos ainda se forem da espécie “pais”.

Então, durante a adolescência, esqueça a cena da galinha com os pintinhos embaixo das asas, eles vão passar a Páscoa “com a galera” em Atlântida. Foi-se a época do abraço de urso matinal. Pais serão ouriços do mar por algum tempo.

Parece que sobraremos eu e a gata, aos domingos, na frente da TV, de pantufas. Eu lhe farei cafuné e ela me fará companhia. Na vida animal é assim: quem não tem cão caça com gato.


PS: procurou coelho da páscoa nesse texto? Já disse, não existe. É mais uma dessas ilusões da vida. Feliz Páscoa!

22/04/2011

Sexta-Feira Santa

SEXTA-FEIRA SANTA
(Tatiana Druck - Par e Impar/2010)

Não quero te render numa teia
de assuntos

quero ser tua mulher-aranha
parceira

te tecer
mosca e caranguejeira

despe, incendeia, enlouquece
devora a presa

e então passeia

pela feira
com ar de santa

numa sexta





15/04/2011

SERIAL KILLER - em tempos de desarmamento


Que o pessoal da campanha de desarmamento não me ouça, mas eu não vivo sem o trabuco que guardo sobre o armário da sala. Nem vem. Nada como ter o poder na mão. É uma questão de autodefesa, é claro, mas confesso que também tem a ver com vontade de matar: aaahhh... não há sensação mais revigorante do que exterminar vidas assim.

Pode me chamar de assassina, revoltada, desequilibrada, o que for, mas há noites em que sonho com as vítimas caindo indefesas no chão. Penso naqueles corpos estatelando e então acordo com um sorriso implacável no rosto. Por favor, senhor Sarney, nem pense em tirar a arma do alcance dos meus objetivos.

Eu sei da importância da vida, do risco das práticas de violência, e que tem a coisa da perversidade e tal. Mas confesso que me dá água na boca quando enxergo um mosquito rondando e penso que com um só golpe sua vida poderá ser eletrocutada. Então corro até o armário e pego lá de cima a tal raquete elétrica: tzááá! – detono o inseto que me roubaria o sangue. É mortal. Melhor que bazuca. Êta sensação de poder.

Tem toda uma técnica de manejo para o peteleco elétrico: tem que chegar por trás do moscão. Não é requinte de crueldade, é precisão. Se não o mosquito percebe e frustra a emboscada. A regra é: abordar por trás, em silencio, sem pânico, e com convicção. Sim, sim, parece hediondo matar por trás. Mas e eles, que atacam enquanto estamos dormindo? Sangue por sangue, sou mais o meu. Fora a sensação de extermínio, que não tem preço.

Bom mesmo é quando estão em bando, três ou quatro, que aí vira chacina. Vão tombando em série, que delícia. Ninguém sai impune. Autoridade se adquire com a arma na mão. Sem isso, estamos vulneráveis.

E não me venha falar de tamanho, prevalecimento, desequilíbrio de forças, e blá blá blá. Injustiça é levar ferroada sem poder morder de volta o inimigo porque ele voou para trás da geladeira ou passou por baixo da porta. Cada um com suas armas. Deixa eu manter a minha em cima do armário.

14/04/2011

Chove

Gosto da chuva enquanto água. Não gosto do desconforto que ela provoca na vida, nos deslocamentos, nos horários.
Gosto que a chuva limpe, mas não gosto da umidade que põe nos cabelos nem nas lâminas de aquaplanagem.
Gosto da purificação, não da lambança de capas, botas e sombrinhas.
Gosto do frescor da chuva, mas não da nuvem preta que acompanha sua presença e escurece o resto do dia.

Bem que a chuva poderia ser feita de água e não de lágrimas.

12/04/2011

notícia boa

Recebi com muita alegria a notícia de que o poema "Olhar Resposta" foi classificado em 1º lugar no XXVI Concurso de Poesia Brasil dos Reis, no Rio de Janeiro. A solenidade de premiação será em maio e, se tudo der certo, estarei lá! No dia seguinte, é oferecido pelo Ateneu Angrense de Letras e Artes um lindo passeio de veleiro pela baía de Ilha Grande, com almoço na Gipoia. É nóishhhh...
Após o evento, publicarei neste espaço o poema vencedor.

09/04/2011

O DESFAVOR DA NOTÍCIA

A cada manchete de jornal que leio sobre o horror ocorrido na escola pública do Realengo dá vontade de comprar todos os exemplares e trancar num depósito. Se eu pudesse, proibiria a divulgação do fato. Tenho medo do quanto ele pode influenciar outros insanos a fazerem o mesmo. Posso estar enganada, mas minha sensação é de que a veiculação de uma atrocidade dessas sugestiona mais malucos a cogitarem a notoriedade post mortem.

É claro que se trata de um fato real e não se discute que é excepcional, grotesco, um desequilíbrio de conduta com inúmeras causas; e a psiquiatria está aí para tentar dissecá-lo.

Entendo que há uma necessidade coletiva de acomodar esse acontecimento monstruoso dentro das nossas cabeças mortais. Buscamos explicações. Estamos sem palavras, então lemos e ouvimos, para crer.

É claro também que a mídia vive da notícia, e que informação é informação. Sei que nós, os leitores, compramos e bebemos o sangue das tragédias, por mais nauseante que seja a sensação depois. A curiosidade é humana. O sensacionalismo é sedutor.

Mas a mídia também forma opinião e influencia comportamento social, sobretudo em crianças e jovens. Estudos nos EUA demonstram que até 30% das ocorrências de atos de violência, sexo e uso de drogas são atribuíveis à influência da mídia (sic. Comportamento de Risco na Adolescência, Jornal de Pediatria 77, RJ, 2001). Sabe-se que a mídia tem poder sobre comportamento e cultura, mesmo quando atua na retaguarda, após o fato. No Brasil foi o primeiro caso de chacina desse tipo mas, e se essa onda pega? Dizem que, numa dada época em Porto Alegre, virou moda suicídios no viaduto da Borges de Medeiros procedido da publicação da carta de despedida pelos jornais locais. O suicida enviava suas derradeiras palavras à Zero Hora e ao Correio do Povo e dirigia-se à ponte para o último salto. Parece que a notoriedade assegurada pelos jornais, encorajava.

Tenho evitado TV, jornais e revistas, é demais para o estômago. Além disso, fico desconfortável com essa sensação ruim de má influência comportamental. Tenho medo que essa modalidade de suicídio a la homem-bomba seduza outros olhos fracos e vire moda.

08/04/2011

Fernanda LimDa




Se eu tivesse lábios como os da Fernanda Lima

não pronunciaria palavras roucas,
não sambaria na avenida pintada de purpurina
nem animaria auditório de loucas

Eu apenas sorriria com os cantos da boca para cima.




07/04/2011

Dia Mundial da Saúde


É véspera de Páscoa.   Patrick, 10 anos, pede de presente... um coração.

Patrick deveria pedir ovo de chocolate, balas de gelatina, jogo de videogame, um IPod Nano,  mas ele pede um coração. Não há agrado mais vital para esse menino. Nada lhe faz mais sentido. Há pressa em viver.

Os pais, com o coração na mão, aguardam por doação desde 2009, na lista de espera de transplantes.
No Brasil, a cada milhão de pessoas, apenas sete são doadoras. E isso que o índice subiu recentemente. Mas é muito pouco. Há mais de 70 mil receptores aguardando na fila. Faltam consciência e atitude individual para a doação e, claro, também falta investimento do governo no sistema.

Saibam: tudo o que há em mim está disponível após a morte. Levem as roupas que visto, as poucas jóias, minha coleção de livros preferidos, mas por favor levem também o fígado, o pâncreas, as córneas. Pulmões, rins, o que servir. Já estou em pedaços por conhecer a dor de Patrick. Viver é um privilégio, e doar é o mínimo que posso fazer em troca da vida que tenho. Levem meu coração. Mas não hoje, que está em ritmo descompassado, espasmódico, sistólico, disforme. Levem após a morte.

De coração partido, rezo por Patrick. E rezo para que as pessoas em geral estejam mais atentas à dura realidade dos que necessitam daquilo que elas nunca mais vão precisar. Doem órgãos após a morte. Não dói. E ainda é uma forma de perpetuar. Há gente necessitando a todo instante.

Desejo que um coração nobre chegue urgente ao corpo de Patrick. Cada minuto já é bem mais do que ele deveria esperar por esse presente. Tum-tum, Tum-tum, é o Tic-tac de Patrick.

30/03/2011

Era Uma Vez em Garibaldi...




E viveram felizes para sempre. No pântano. The end.


Poderia ter sido assim o final feliz do casamento de Denise Flores e Marcelo Basso, mas foi uma polêmica só. Levaram advertência da Igreja Católica, saíram como noticia na mídia internacional, tiveram que conceder entrevista no meio da lua de mel. Esse casamento já começou um inferno. Mas desconfio que a confusão toda não tava prevista no script, mesmo sendo um casamento assim, do tipo dreamworks animation. Vai ver só o que faltou foi Andrew Adamson para dirigir melhor a cena, que o espetáculo não era de todo mal, que tinha um recado profundo no enredo, ah, tinha.



Indagada sobre os motivos da pitoresca invenção, a noiva explicou mais ou menos assim: Shrek e Fiona, embora sejam ogros e feios, têm coração. Eles encontraram o amor sem preconceitos. São personagens com atitude. Eu sei que não convenceu à maioria, mas eu gostei da resposta e da atitude provocativa do casal. Quem não quer que o casamento seja um conto de fadas? Ser feliz para sempre com seu amor, no pântano, no deserto, nas montanhas, na cidade grande, seja lá onde for? Eis a questão: todos que casam querem a felicidade eterna, mas poucos assumem realmente que a felicidade do casamento é ficção. O amor dá trabalho. Relacionamento dá trabalho. Shrek e Fiona (os do filme) encararam o desafio: diante dos olhos descrentes de todos (a começar pelos seus próprios) entenderam o amor.



Shrek era um ogro ranzinza e solitário por opção. Encontrou-se com Fiona por obrigação, não por escolha. O objetivo não era encontrar o amor, mas salvar o pântano da destruição. A missão que precisava cumprir para tanto era a de libertar a aprisionada Fiona, que na ocasião ainda era linda - uma princesinha! - e ele não gostou, o louco. Esmola demais para o santo. Shrek então seguiu seu propósito original, insensível à possível sedução de Fiona e, na estrada, os dois foram se conhecendo. Lá pelas tantas, literalmente sem querer, Shrek acabou tropeçando no amor e – ops - sentiu a pedra no caminho. Pareciam espécies tão diferentes, mas... surpresa! : apaixonaram-se. Shrek parou para pensar com o coração. Acho que isso não aparece na cena, mas pude vê-lo no filme fazendo contas: o quanto, e mais quanto, e mais quanto, iria ter que se incomodar pelo amor de Fiona. A escolha do amor dá trabalho. Mais que matar dragão. Ele não fez conta sem razão, não. Sabia o que teria pela frente e topou. Apostaram juntos. Lutaram contra adversários ferozes como o preconceito - okei, teve um pouco de dragão de verdade no meio da história, mas não conheço bicho mais assustador do que o preconceito. Venceram. Triunfaram com esforço de verdade, assumindo a decisão de se casar, embora Shrek não fosse propriamente um príncipe.

Voilá! Quer cena mais encantadora? Na vida real, longe de sermos personagens de conto de fadas. Come on, estaríamos mais para ogros do que para príncipes. Mesmo assim, o amor pode reinar. Para tanto é preciso acreditar com consciência. Não numa fantasia, numa idealização, num conto da carochinha, mas na história de verdade. Há que buscar as vantagens dela, driblando os desafios diários. Conto de fada  é antes de tudo um conto de - é crer num acontecimento do destino e, sobretudo, arregaçar as mangas pela causa.


Eu acho o animée de Shrek-e-Fiona bem mais real como exemplo de casamento do que o Príncipe Charles e a Lady Di (para usar um exemplo realmente real) que, aliás, teve carruagem e tudo. Esses casamentos arranjados, de interesse, não deveriam ser criticados pela Igreja? E os cheios de pompa, como o de Liz Taylor e Larry Fortensky, não mereceriam advertência pelo excesso de glamour? Por que os casamentos na praia, ou no campo, seriam menos sérios? Só pelo fato de não ter o templo como entorno? E o conteúdo, não vale? E a consagração do amor puro, onde fica nesses casos?



Ainda: se esse casamento de março de 2011 tivesse acontecido no século XII, não teria sido um casamento medieval típico? Acho que o ritual escolhido pela cabeleireira e o empresário para a celebração do casamento foi também um santo recado para a igreja, para que regulamente com clareza a forma que exige à cerimônia religiosa do casamento, visto que repreendeu a manifestação atípica do casal, considerando-a “constrangedora”. Não vale deixar a questão para o bom senso num mundo de movimentos tão espontâneos e livres. Se há punição ou repressão, tem que haver regras a propósito. Fico perdida: Bispo vestir túnica com estola e Papa usar casula bordada a ouro e capacete enorme e esquisito, pode? Um pretinho básico atenderia melhor a simplicidade recomendada à vestimenta.



 
Sei que quando entra religião no assunto tudo fica mais complicado, preso a dogmas e, por que não, condicionado a pré-conceitos. Eu respeito, ou melhor, entendo. Talvez seja mais fácil para mim, que sou laica, pensar que minha religião é o Amor e achar que Deus quer apenas que sejamos felizes. Que não importa como, onde, muito menos o que estaremos vestindo nos momentos de felicidade. Soa-me mais natural pensar como Shirley Maclaine aceitando que “sou feliz várias vezes ao dia”. Felicidade pra mim é isso: é o prazer que encontramos aqui e ali; é a paz de saber que estamos quites com nossos propósitos; é a liberdade das escolhas.


De qualquer forma, ou - vá lá - de forma estranha, Denise e Marcelo se escolheram e escolheram celebrar o casamento. Assumiram o amor e suas conseqüências. Capricharam no capricho: convenceram padrinhos, pajens, convidados e até o Padre a aceitarem sua vontade de encenar os personagens de um filme de Hollywood. Todos entraram em cena. Foi inédito, foi lindo. E nem era num reino Tão Tão Distante. Era ali em Garibaldi. Pode não ter dado bilheteria, nem Oscar, mas deu pano pra manga -bufante.

18/03/2011

Dia Internacional do Sono

Acordei tipo assim, meio sonolenta.
Levantei trôpega e fui fazer café, caminhando pela metade - a alma seguiu deitada na cama, pedia uns minutinhos mais de soneca. Em ato de solidariedade voltei e ajeitei o despertador para às 6:20h, apaguei a luz do abajur, cobri minha alma com edredom leve e sussurrei baixinho: Fique, fique mais um pouquinho na cama, hoje é o Dia Internacional do Sono.

Então caminhei em passos muito suaves para a cozinha, o corpo esvaziado de qualquer consciência, buscando automaticamente o cheiro do café preto como quem procura o seu próprio sentido.             


                         

12/03/2011

Dia Nacional do Bibliotecário

NA BIBLIOTECA                                                           
(Tatiana Druck)



Escolha suas opções
entre histórias, sonhos, mapas, poesia, canções
guia, manual, minutas, roteiros, dicionário
e consulte o sábio bibliotecário
com práticas recomendações

A biblioteca é mundo infinito
labirinto de letras
calendário asteca
conglomerado de cidades
um caleidoscópio de múltiplas verdades


Biblioteca é templo ecumênico, é retiro, é recanto,
Meca, casa de todos os santos,
castelo de boneca


Não há proibições, só encontro
com diferentes crenças e muitas gerações
- livros são motivos
convites vivos para realidades e ficções


Lembrete de cabeceira:
De segunda à sexta-feira
a biblioteca tem produtos na prateleira
sem prazo de validade.



09/03/2011

Quarta-feira-de-cinzas

                     DESENREDO DE SAMBA

Nem rugira o leão da cuíca
e despencou-se a fantasia
tipo planta de outono
- caiu bamba aos poucos

A ala rodou a baiana antes da hora
alegoria pareceu velório
o samba virou rumba mais cedo

Em meio a rumores esparsos
saltimbancos tomaram o asfalto
frieza fez par com o medo

Ouviu-se um “shhh” de segredo
e garis saltitantes se encarregaram do resto:
a limpeza das calçadas

Bailarina tirou o sapato
observou seus pés de palhaço
de duas cores

Nem rugira o leão da cuíca
e ela partiria lentamente
como cinza ao vento

Antes de deixar o aquecimento,
sacudiu o tule, espanou os ombros
e ao ouvir que o ronco da cuíca começava

expulsou da avenida larga das suas costas
todas as mulatas que a habitavam
e também aquela passista de voz embargada

que exigia respostas

08/03/2011

Dia Internacional da Mulher

PARADO XX O
(Tatiana Druck)



Que mulher somos?
um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos
olhos, filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário

Que mulher nos resta de brinde                        
ou contingência
ou garantia
ou ganância

malabarista, puritana, ativista, madame, mundana
erudita, sensual, cibernética, espiritual
eclética, cansada
coca light, whisky sem gelo,
baba de moça, chá de jasmim

Que mulher tocou pra mim, afinal -
a que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

Que mulher somos?
Assopramos feridas,
viramos de ponta cabeça,
reviramos lixo,

com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

07/03/2011

Leituras de Mundo

Foi muito generosa a resenha e crítica feita pelo jornalisra e mestre Romar Beling na Gazeta do Sul e também a postagem no seu blog: Leituras de Mundo (http://www.gaz.com.br/blogs/leiturasdemundo/posts/3297-par_e_impar.html).
É com impulsos generosos como este que o autor estreante leva adiante a lapidação da sua arte bruta.

Par e ímpar, de Tatiana Druck. Porto Alegre: Mecenas; TAB Editora, 2010. 115 p.
O Par e ímpar configura a estreia de Tatiana Druck na poesia. E há no livro tudo o que rima com a melhor literatura. Carioca radicada em Porto Alegre, mereceu, a título de apresentação, palavras elogiosas de Luiz Coronel e Cíntia Moscovich – é egressa das aulas de criação literária do curso que Cíntia ministra. Mas nada é mais contundente do que seu próprio verso para confirmar a eficiência do seu radar na prospecção do mundo interior. Tatiana brinca, ousa, desarma, e de novo arma; a poesia tem, entre outras tantas virtudes, a delícia de subverter lógicas no amor, na dor, no desenraizamento, na arrogância. Onde a palavra poética reina, toda certeza e toda tristeza vivem sua quarta-feira de cinzas; a teoria é esquadro, a realidade é mão livre. Um drops, o poema Esboço: “Abriu a caixa / saiu da casa / perdeu o chão / quebrou a asa / pisou em vão / disse que sim / disse que não / pensou em esquadro / e rabiscou à mão”.