15/12/2012

Providências Antes do Fim do Mundo

RUMO AO PARAÍSO HD 40307

Extra, extra! Acabam de descobrir um novo planeta habitável fora do sistema solar. Fica a 42 anos-luz de distância da Terra. Bem dizer um piscar de olhos, do jeito que a coisa anda. Não teve aquele maluco que há pouco quebrou a barreira do som num salto de paraquedas? É fazer o mesmo de baixo para cima, ora.

Bom, deixemos as questões operacionais para depois. Só sei que vou de mudança e levarei os meus. Cansei dessa coisa de faltar água no planeta água. E dos apagões. Esses dias cortaram a luz por 3 horas no meu bairro. Pela segunda vez na semana. E o combustível? Petrobrás diz que não vai faltar, mas a fila do posto desmente (antes mesmo que a Veja publique sua matéria com denúncias bombásticas). Tá tudo fotografado. E contra fotos não há argumentos.

Pois nesse novo planeta aí, parece que encontraremos a fartura de recursos naturais que só Adão e Eva experimentaram na terra virgem. Vai ter banana sem pragas, água potável e carne de vaca para todos, até para os indianos, dizem. O vento será brisa, nada de furacão. E o sol não sairá de férias durante o Carnaval. Essas sim, são verdadeiras condições adequadas à vida.

Depois, por aqui ainda tem o tal terrorismo do fim do mundo. Lá não, teremos um mundinho zero bala. Sem Maias rogando pragas para as civilizações futuras.

Eu vou. Tentei marcar passagem com milhas, mas o sistema não aceitou. É só ter paciência de esperar um tantinho mais. Daqui a pouco a Tam lança vôo direto e era isso.

Bom, se você está muito bem obrigado onde está, que fique. Não vou forçar a barra. Aliás, já nem está mais aqui quem falou. Tô saindo para o evento de pré-venda dos primeiros lotes com vista para a Terra. 

See you! 

10/12/2012

De joelhos



DE JOELHOS



Eu que sempre fui péssima em física na escola e pouco me relacionava com a lógica precisa da matemática, é claro que passei de costas pelos teoremas de Arquimedes, o estudioso da alavanca e outras noções que revolucionaram o mundo.

- "Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra", disse Arquimedes sobre o poder da alavanca.



Na verdade, ele disse “δῶς μοι πᾶ στῶ καὶ τὰν γᾶν κινάσω”, em palavras originais. Mas nem ouvi. Matemática pra mim é grego.



E sabe o que? Essa sabedoria não me fez falta no colégio, nem no vestibular, na profissão, e muuuuito menos para ser feliz na vida. Sou favorável à redução do currículo escolar (em pelo menos um terço do conteúdo) - simplesmente porque o aprofundamento técnico é dispensável para nosso desenvolvimento básico e ainda toma lugar de formação mais importante: primeiros socorros, mecânica automotiva, psicologia, finanças pessoais, empreendedorismo, política, economia, oratória, diplomacia e outras matérias que deveriam ser bem aprendidas muito antes da fórmula de Baskhara.



Que Pitágoras não me ouça, mas até prendas domésticas é mais útil para a sobrevivência do homem comum!



Só que esses dias, no joguinho de futebol semanal com as meninas, odiei desconhecer que Fp x BP = Fr x Br. Subestimei o poder da alavanca e deixei o pé na dividida da bola. O conhecimento matemático me fez falta. Ah, como fez. Não calculei as consequências e criei alavanca onde não devia (é preciso esclarecer que a zagueira tinha o dobro do meu tamanho e era combativa). Fui catapultada. No ar já senti o estalo, o ploc dos ligamentos se rompendo, a patela subindo pra coxa. E a dor. Um chute na alma.



O que era para ser o último jogo do mês, provavelmente terá sido o último da vida - minha carreira no futebol já tava na categoria pós-sênior e eu seguia em campo jurando que sou Roger Milla pra driblar o tempo.



E agora ainda tem a coisa das muletas, depois cirurgia, fisioterapia e por aí vai. Buscarei jogos sem contato físico, tipo par ou impar. E vou estudar matemática nas férias. Cursinho básico de fórmulas e equações para sobrevivência. 





08/12/2012

Assalto à Mão Amada

08/12 : Dia da Família - Meu desejo de que seja sempre possível frear os ponteiros acelerados da vida para vivenciar as imperdíveis cenas de família. Elas são fugazes mas, se bem sentidas, ficam.  












ASSALTO À MÃO AMADA
(Nov/2007)

Fui assaltada nesta manhã
quando tirava o carro da garagem, distraída.


Atacou-me impiedosa
com máscara de mergulho, metralhadora de luz
uma espada na outra mão
e eu,
sem saída.

Pedia-me um dinheiro, um anel, um beijo
em troca da minha vida

Com armas de plástico de pequeno porte
e cara de mau
sem um dedo livre para me segurar
paralisou de imediato
minha rota apressada
e eu,
- daria meu reino por este dia de sorte.

Negociação honrosa e sem morte
tomou vinte e cinco segundos de prosa
cinqüenta centavos pela cena
mais um afago na testa
e passe livre para seguir em paz

Com os bolsos cheios
e os olhos também
com a alma abastada
e o cofre também
dei uma ré feliz
e segui estrada sabendo
que alegria é feita de quase nada

Eu vi
emocionada
ali
me abanando em frente à praça
com cara de sono e sorriso de atriz
minha riqueza de graça

Para minha filha Lau, a meliante.
Terraville, novembro de 2007.

25/11/2012

Transfusão

25/11 - Dia Nacional do Doador de Sangue



TRANSFUSÃO

Quem falou
que seu sangue azul
não se misturaria com o meu

Quem apostou
que vampiro desejaria mais o seu mel
do que eu

Quem duvidou
que a sua nobreza
não faria um lindo par com minha necessidade
nesta noite comovente de incertezas?

20/11/2012

Consciência Para Todos

No Dia Nacional da Consciência Negra


CONSCIÊNCIA PARA TODOS


- O que você acha do mês da consciência negra?
- Ridículo! - ...e aquela visível cara de impaciência.
- Então como vamos nos livrar do preconceito racial?
Parando de falar sobre isso! Eu te chamo Mike Wallace e você me chama de Morgan Freeman.

Assim este genial ator encerrou a tentativa de polêmica criada pelo entrevistador da CBS News. Você quer uma semana para a consciência judaica? Você precisa disso? - seguiu ele, desconcertando o entrevistador. Confinar toda nossa história em um mês? A história dos negros é a história da América! De mestre, Morgan, de mestre. veja em http://www.youtube.com/watch?v=tNEoIo3XMws

Morgan Freeman é um ser livre, como seu sobrenome induz: free man. Mas o jeito simples e natural de lidar com um assunto pra lá de batido e que ainda causa desconfortos, foi uma atuação de primeira. Tão encantadora quanto o personagem Carter em Antes de Partir.

A raça negra é forte, bonita, criativa, saudável, inteligente. Cotas para negros em universidade é tão descabido quanto seria criar cotas para brancos em gravadoras de rap, ou na liga de basquete da NBA.  Características físicas de origem racial não criam diferentes hierarquias de seres. Há necessidade de proteger os iguais?As diferenças estão naturalmente em qualquer pessoa, seus talentos, vocações, aptidões.
Segmentar por raça é preconceito. É jogar pessoas contra pessoas. E olhe lá, preconceito nada tem a ver com os nomes que usamos na identificação informal: para mim “negão” é tão válido quanto “japa”, “magrão”, “loirosa” e “galego”. Ou esses termos não fazem parte do seu vernáculo? Preconceito é como você realmente trata as diferentes pessoas.

Temo que o dia da consciência negra não crie homenagem, mas atrapalhação. Conceder ao tema um dia no calendário é como dizer: este é seu espaço, não saia daí.

A objetividade de Morgan fala alto porque avança na noção de civilidade. História é uma coisa, preconceito é outra. É claro que a escravidão dos negros plantou uma marca histórica reprovável. Mas aqui estamos para superar marcas agindo diariamente contra qualquer espécie de hostilidade. Perseguição existe por todo lado. Desde o bulling nas escolas até a xenofobia a estrangeiros. Toda forma de hostilidade é perversa, e a luta pela tolerância é a verdadeira bandeira, uma bandeira de múltiplas cores, origens e credos.

Eu não vou dizer que sonho com a paz mundial, soaria discurso de miss. Mas acho sim que humanidade é a causa que merece mobilização e atitude todo dia, todo mês, todo passo que se dá.

Vamos, Morgan, lutemos juntos pelo mês a mês da consciência humana.

16/11/2012

Orquestrando

Na Semana da Música

ORQUESTRANDO

Se essa banda fosse minha
eu regeria os solfejos
convidaria os arcanjos
estalaria um beijo
abriria a cortina pro sol
daria ouvidos ao realejo
tocaria em si mesmo
ou mi bemol

Libertaria da rígida regência o desejo
rebolaria displicente
o corpinho de violão
caminharia de ré bem colcheia
amaria no solo
tremeria o grave do chão
sairia do tom
desafinaria sem dó

Após um bom refrão
deitaria no teu colo
com cara de viola
pediria uma cerveja
puxando conversa de cavaquinho
ficaria lá, do teu ladinho
em concerto infinito
sem cordas nem vogais

Se essa banda fosse minha eu perderia a voz
- viveria em suspiros sustenidos
por acordes musicais

08/11/2012

Four more years para nosotros!
















Ufa, Presidente!.. Achei que perderíamos o telefone vermelho. Eu não viveria sem o telefone vermelho. Tire-me o rim, mas deixe o telefone. É um ícone, um fetiche, um must have. E veja que tem até fio! Preste atenção: é pelo telefone vermelho que lhe passaremos os comandos - nós, latinos e mulheres que o reelegemos. Você recebeu sua segunda chance, Presidente. Certo, você realmente tinha amigos na Florida e em Ohio, mais do que imaginava. Mas foi o apoio das minorias que chancelou sua prevalência. Portanto, agora nos ouça, nos olhe, nos cuide, for God sake. Você disse que o melhor ainda está por vir e que estamos juntos nessa. Oba, oba, in Obama we trust!

Desculpe os pés na mesa. É, estive novamente ocupando sua sala enquanto você andava lá checando as urnas. Senti-me à vontade. Nada demais - relaxei, tomei café aguadinho e dei uns telefonemas. Todos vermelhos. Aproxime-se, a sala é sua de novo, ou ainda. Sim, sim, a cadeira também, já desocupo. Chama isto de invasão? Bem, até pode ser, no rigor da palavra. Mas foi pacífica e branda, você entende bem esses termos. Nos seus parâmetros eu diria que está mais para a da Somália do que para a do Iraque, if you know what I mean. Take it easy, nem me ocorreram as explosões do Japão, faz tanto tempo...

Só entrei, dei uns toques femininos na sala e pronto, já tô de saída. Olha, deixei uma listinha de sugestões aqui, sobre a mesa. Sem pressa, quando tiver tempo dá uma olhadinha. Ah, e tomei a liberdade de trocar a foto da Michelle com as crianças no porta-retrato, não leve a mal. A de tailleurzinho estava muito protocolar, ficou melhor essa aí no morro do Vidigal, com a madrinha junto, em que aparece você ao fundo fazendo embaixadinha. É mais latina, mais natural, mais “famílião”, entende?

Hein? Could you repeat, please? Ah, sim, de novidade o índice Dow Jones despencou, assim como o preço do petróleo, mas o Big Mac está saindo por dois dólares e trinta e três cents em Washington. Se eu fosse um argentino na década de 80, eu diria “dame dos”. Mas sou brasileira e estamos em outros tempos, moeda forte e tal, então... give me five, yeah!

Já vou indo, mister President. Não esqueça a listinha, ali, no canto da mesa.

O melhor ainda está por vir. Adios! Hasta la vista! Suerte, amigo!

E atenda sempre o telefone.

01/11/2012

Mandinga

No Dia de Todos os Santos



MANDINGA


Depois de maldizer os santos
racionalizar os fatos
desfazer quebrantos
recolher as flores, apagar as velas
demolir o altar e o querubim

Segurei com firmeza meu próprio pulso
sem batimento
e com a fé que dispunha
rompi em prantos e sem testemunhas
a fitinha do senhor do bom-fim

A partir de agora, não creio nem em mim

26/10/2012

Convites

Queridos blogamigos,

Os acontecimentros literários desta semana me deixaram muito feliz! 

Primeiro, a premiação no Concurso Mário Quintana (1o lugar em Crônica e menção honrosa em Conto) recebida diretamente das mãos do Secretário de Cultura do Estado, Luiz Antônio de Assis Brasil, deferência tão legal quanto o prêmio. Os textos estarão na Coletânia que será lançada amanhã na 58a Feira do Livro de Porto Alegre.

Depois, um programa de rádio em Santa Catarina que fará a leitura de poemas do livro "Par e Ímpar" através da interpretação de Marcos Antonio Terras, um incansável e entusiasmado promotor da poesia no Estado de Santa Catarina. Há cinco anos Marcos faz a leitura de poesia à mesa de bar, no café do Memorial Attilio Fontana, em Concórdia. Este ano também conquistou espaço na rádio UnC FM (rádio educativa), onde todos os sábados declama poemas intercalados por músicas que dialogam com os textos. Pura magia! Para este sábado, para minha honra, Marcos escolheu o Par e Impar, o meu bebê! Tenho um amor tão grande pelo Par e Ímpar que adoro quando aparece alguém assim disposto a embalá-lo com carinho. Fiquei muito feliz mesmo. E admirada com o Projeto Palavra's, do Marcos, que faz circular a arte com tanta doçura.

Assim, compartilho os convites para este sábado, 27/10:

1) às 13h, na rádio UnC FM Concordia. O programa pode ser ouvido pela www.uncfm.com.br ou sintonizando 106.

2) às 18h, na 58a Feira do Livro de POA (Memorial do Rio Grande do Sul): lançamento da coletânea "O Fio da Palavra", que reune textos de oficineiros do Sintrajufe e os trabalhos premiados no Concurso Mário Quintana 2012. Haverá distribuição gratuita de exemplares e os autores estarão autografando.

Um grande abraço literário a todos.

23/10/2012

Carta de adeus à Romney



Anunciaram um cenário “intimista”, fui checar.

Nada de meia-luz. Puseram vocês meio de frente, meio de lado, um ângulo estranho, talvez a medida calculada para uma piscadinha de olho incapaz de ser captada pelas câmeras. No mais, um cenário frio de CBS News.

Você, aquele galã de sempre, Romney. Se eu tivesse um presidente, queria nele essa aparência, uma postura sólida que fica bem em museu de cera depois. Você é bom, bem treinado. Prometeu olhar para América Latina, só olhar. Os olhos verdes e a gravata estavam impecáveis. Mas você não vai muito além disso, governador. Falta credibilidade. Seu deboche ultrapassa umas duas jardas o limite do razoável. O jogo é ser convincente, não engraçado. E depois ainda tem aquele episódio da mentira flagrada no último debate. Pegou mal.

Meu candidato é Obama, sempre foi. Nem sei bem por quê. Gosto do jeito que ele cria as filhas e abraça a mulher. Gosto de como Michelle se emociona em seus discursos e as meninas se orgulham. Gosto de saber que todos arrumam sua própria cama a cada manhã na casa branca. Um país não é uma grande família a ser educada, amparada?

Gosto do olhar de tigre de Obama – talvez o instinto de alcatéia é o que o faz ver a China como aliada. Apreciei o fim que deu em Bin Laden e o prêmio Nobel da Paz um pouco antes. Depois, sei lá, Obama morou em Bali, cursou direito e é canhoto. Gosto do seu estado de bote permanente, sempre a postos para saltar sobre a presa. Não digo devorar, mas morder, mastigar, machucar, com toda cautela e elegância de um lorde à mesa. Obama disse que você mente, Romney, que é um ser ultrapassado e que ainda por cima grita. Você nem sentiu o golpe. Eu sou Obama desde pequeninha. Além disso, ele tem uma esposa forte e linda. Minha mãe gostaria de ter os braços gordos e firmes de Michelle. Luta por isso na academia com a mesma garra que eu luto para ter o abdome definido do Zé Roberto. Bem, devem ser razões suficientes para apoiar um candidato que não presidirá meu país. Go for it, Obama!

20/10/2012

Mulher Pistache

MULHER PISTACHE


Mulher argentina tem fama de durona com os homens. Dizem que para descolar um papo com uma portenha não basta ter voz. Nem um par de olhos verdes, um reforçado conjunto de bíceps, ser ex-BBB. Dizem que para seduzir uma argentina não funciona nem mesmo pilotar um jaguar ou outro bicho exótico, o que vale é a boa lábia. E não adianta falar espanhol perfeito e mais cinco línguas. Tem que falar a língua dela.

Significa dizer que este flerte exige calma e persistência. Antes de tudo, deve-se convencer a muchacha de que não há interesse em apenas uma noite. Ela conhece a safadeza masculina, só dará confiança aos pouquinhos. Migalha por migalha. Sabe que quanto mais rápido se entregar, mais rápido termina o jogo. E a gringa não curte games fugazes, ela prefere gangorra a escorregador - se é que o conquistador lembra das brincadeiras de praça nessa hora.

Pergunto-me por que diabos, conhecendo a pedreira toda, os homens ainda investem tanto na conquista da mulher argentina. Correm o risco da viagem perdida. Gastam umas férias só no flerte, comentando com entusiasmo patético: “Fabrizia está por um triz, mais cinco dias e ela me deixará pagar sua cerveja” – e a cara é de quem está quase fincando a bandeira no solo da lua.

Elas são difíceis, deslizantes, desafiadoras, as argentinas. É claro que sempre tem louco buscando o topo do Himalaia, mas em tempos hedônicos, em que o prazer perfeito está facilmente ao alcance da mão, por que será que a conquista difícil ainda é um esporte internacionalmente apreciado?

Encontrei a resposta quando enfrentava um pote de pistaches. Tem que abrir semente por semente com paciência de monge. Quebra-se a unha, machuca-se o dente, e você, salivando, não desiste. Com a dedicação de um hippie montando colar artesanal, você luta até a morte contra a casquinha dura, até que finalmente liberta a pequena iguaria e a enfia na boca com aquele sabor de floresta virgem, que dura... um segundo. E aí, valeu o sacrifício?

Sua cara deveria ser o emblema da saciedade: um copo d’água depois de atravessar um deserto, uma cama de mola ao final da maratona. Ora, depois de comer um pistache você deveria fechar os olhos e encenar um grande suspiro do tipo propaganda de bala de menta!!! Mas que nada. Suando em bicas você não pensa em outra coisa que não no próximo pistache, e no próximo e no próximo, porque aquela minúscula semente verde vira um desejo incontrolável, com a força do incrível hulk.

Você quer a sede do deserto até não aguentar mais. Não há trégua no prazer da conquista. Então você entra de novo no ringue com uma pequena (mas poderosa) casca dura na mão. Parece instinto de sobrevivência. Ou de luta: leão faminto não come cachorro morto em beira de estrada, segundo o ditado.

Então, fica a dica às mulheres: vistam sua casca-dura e sejam mais argentinas neste verão. Não entreguem a honra de bandeja. Só o desafio tem sabor irresistível, meninas. Sejam mais pistache e menos amendoim com sal.

1o lugar categoria Crônica -
Concurso Literário Mário Quintana 2012

18/10/2012

no dia do médico


      DIAGNÓSTICO

Você constatou sem pressa
que pus a blusa do avesso
sentei torta na maca
borrei a maquiagem
fiz cara de morta

Você alertou devidamente
que era um olhar clínico
que observava cínico meus passos
enquanto tomava nota

Você examinou meu pé doído
investigou meu rastro
mediu meu juízo
e foi preciso ao atestar
que eu pisara em caminho proibido

12/10/2012

No Dia das Crianças



CARTILHA

Se filhos são ilhas de existência autônoma
cercada por sonhos de outros
que os aprisionam,
que pena.

Não deveriam sentir-se isolados
acuados em terras estranhas

Tomara possam escapulir pelo ar
com as artimanhas que escondem no armário

Porque é deles a escolha
de pintar o cenário, o cabelo, o muro, o mundo
cruzar mar, caatingas, cerrados,
e o futuro

Não os quero ilhados.

Tomara saiba eu recolher minhas águas
e deixar-lhes fluido o espaço
Tomara possam ouvir minhas preces
mas seguir sua sorte

E enquanto crescem
que eu consiga impor-lhes apenas
como rotina obrigatória, o abraço
como disciplina, o amor
como láurea, a paz

e como tema de casa diário
o exercício ordinário da sua própria história.




3º LUGAR
XVI Concurso nacional da Academia Caxiense de Letras 2011

04/10/2012

Dia do Cão


THE END

Soltei em ti os meus cachorros
encontraram teus gatos mansos
foram ver televisão

Cansaram da cena de cinema
do papel clichezento de inimigo mortal
e alguém sempre morrendo no final

01/10/2012

Dia Internacional da Terceira Idade



OLHAR RESPOSTA

Cinqüenta anos depois
a sós
espio pela fresta fina
dos olhos com que hoje te vejo

sinto nós dois e
ainda percebo a cor carmim do desejo
cobrindo tua íris de luar

então entendo
por que aceitei teu amor
sem tocar a boca de menina

- eu disse sim ao teu olhar
muito antes do primeiro beijo




1º lugar categoria nacional
XXVI Concurso de Poesia Brasil dos Reis/RJ - 2011

27/09/2012

Dia Nacional do Idoso




Fórmula para depois dos noventa


Frio na barriga num avançado ponto
da existência?
Experimenta misturar:
água com gás, gelo seco,
eucalipto e halls de menta.

21/09/2012

Dia da Árvore


EM ARBORIZAÇÃO


Quisera ser pra sempre um Jasminzinho

Canela-rosa, Erva-santa
Dama-da-noite, Amor-Perfeito
teu Lírio da Paz.

O sol bateu e bem-te-vi não apareceu.
Como um Chorão, entristeci.


Lá vou eu, Imburana-de-espinho, Pindaíba-preta
Canudo-amargoso, Maricá sem flor 
Pata-de-vaca, Embiruçu-peludo

Entre um inverno e outro eis que chega a primavera -
abre olhos, bocas e botões

O Infalível tem ramos acinzentados
tronco tortuoso e por cima é feio.
Jacarandá é a árvore mais linda que há
- mas só por dois meses e meio.
A Aroeira, tão condenada, tem copa globosa.
A Guaximinga, nome feio e flor perfumada.

Nem só frutos, nem só folhas
Só larva ou só maçã
Perdas entre escolhas
Aqui floresce o Ipê; lá, o Manacá
Do galho seco vem a romã

Em cada canteiro um encanto
por diferentes tempos e cheiros
Tudo brota do seu jeito

E o Para Sempre, não há
Nem na longa vida do Jequitibá.

17/09/2012

Dia Mundial da Compreensão

louca
 
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA  
Chegue de mansinho
evite insistência
ameaça ou condolência
perceba o cabelo
não erre seu nome
nem sejas louco
segure firme
assobie fino
finja que tá tudo normal
que aos poucos
passa
a TPM mensal
 













12/09/2012

Da série Celebrando as Amizades de Valor

QUENGAS DO NOSSO BRASIL
quengas 
Tenho uma amiga cujo ímpeto eu admiro. Ela mora em Itacaré, para onde foi em busca de paz. Éramos colegas de profissão, conduzíamos centenas de processos judiciais e dezenas de incomodações. Fafá trocou as pedras no sapato por um leve par de havaianas e – até mais ver!.. - aposentou-se antecipadamente. Ela teve a coragem de poucos: trocou conforto por simplicidade. Champagne por água de côco. Escritório por bico. Capital por vilarejo. Um milhão e meio de porto-alegrenses por um punhado de baianos alegres e desprendidos. Fafá trocou cidade por paraíso. Levou junto o parceiro e o ímpeto de radicalizar.
Fafá ri com sabedoria, reflete com graça, me diverte e inspira. Tem sempre uma percepção diferente da vida, um apanhado imprevisível sobre a existência. Vez que outra conta cenas surreais captadas da vivência rústica no seu blog “Dinoráh com agá no fim” (http://www.dinorahcomaganofim.blogspot.com.br/), vale checar.
Estive com ela duas vezes na Bahia, e com certa frequência nos visitamos por e-mail (é desses que quando vejo na caixa de entrada corro a abrir ansiosa como se fosse ovo de páscoa). Tem sempre um relato sábio e risível (pra mim, o binômio da boa história). E é acontecimento tão sublime que costumo ler o e-mail em voz alta, compartilhando-o com o marido durante algum momento nobre como o café da manhã, porque sempre gera descontraídas gargalhadas, seguidas de debates filosóficos, ou seja, um prosaico momento de prazer.
Pois ontem recebi e-mail da Fafá. Ela contava sobre o 7 se Setembro em Itacaré, quando ajudou a organizar o desfile da escola pública onde leciona: “Tinham vários temas, entre eles, é claro, Jorge Amado. Então as crianças deveriam representar diferentes personagens das suas obras. Logo a fila das "quengas" ficou enorme – todas as alunas queriam sair de quenga! - que vergonha”.
Minha primeira reação foi imaginar a cena e rir. Logo depois, bateu a tristeza pelo que representa esse rico dado sociológico. É triste que meninas em plena fase de sonhos, fantasia e idolatria valorizem a sedução como atributo máximo de valor, a prostituição como carreira.
Não esperaria identificação da jovem brasileira com Joana D’Arc, Cleópatra, ou Anita Garibaldi (pra ser mais local). Mas por que não a heróica Lívia? A corajosa Malvina, a refinada Ester? Ou mesmo Gabriela, alegre e trabalhadeira, com sua sede de liberdade e valorização do amor acima dos interesses materiais.
Nossos referenciais são pouco nobres, pouco promissores, sem ambição ou talvez esperança. No Brasil, rapaz de sucesso é Neymar - que além de jogar bola, tem uma fila de quengas de vestido curto atrás.






06/09/2012

Bípede Retumbante



Tive um tempinho extra de paz e saí de quatro patas a farejar os blogs favoritos da Bípede Falante que, para quem não sabe, “é tudo que eu quero ser quando crescer” - se rolar de vir a ser um blog adulto. Lembro que em 2010, quando aterrissei na blogosfera, já na primeira expedição de reconhecimento do solo estranho tive a sorte de encontrar a casinha dela, toda decorada de poesia, cores, referências, experimentações e muito, muito talento vibrando ao ar livre. Porta aberta, entrei de mansinho. Naquele espaço cuidadosamente arrumado fui ficando como bicho que logo se aninha. Rede não tinha, mas era como fosse de linho rústico - lembro de relaxar enquanto lia, pra lá, pra cá, embalando suspiros. Foi aí que a quadrúpede aqui - quiçá um ser rastejante em aprendizado permanente - entendeu que Bípede falava, ou melhor, escrevia, e desenhava. Descobri sua doçura, inteligência, sensibilidade. Além de falante, emocionante.
Faço este registro porque nem a conheço ao vivo (e olha que moramos na mesma cidade) mas lhe devo tanto. Sempre que posso visito sua casa como se fosse vizinha, e aos pouquinhos a de seus amigos, dos amigos dos amigos, e como é gigante e lindo esse latifúndio que acolhe a arte.


http://tatianadruck.blogspot.com.br/2010/05/passeando-par-ci-par-la.html



31/08/2012

Morte Digna - homenagem à resolução do Conselho Federal de Medicina que regulamentou a "morte digna" de pacientes terminais, publicada no Diário Oficial em 31.8.2012.



FAVOR DE ÚLTIMA HORA


Apenas abane
se eu ficar tonta
Assopre se lhe arder a falta
de resposta
ou de noção
Sente-se
segure o seu ar, somente
não me segure pela mão
Simplesmente entenda
meu não
O sul é o norte
para quem anda de costas
Então guie
por favor
o caminho
da livre decisão
deixe-me indo
Vire-se
sorria
permaneça

E antes que me esqueça
deseje-me boa sorte
no dia
da mortelibertação.

27/08/2012

Prove que você não é um robô

robô Tem muita coisa incrível nessa blogosfera. Andei zapeando por blogs de literatura nunca antes navegados e deixei comentários no que encontrei de legal.

Devo confessar que adoro a parte do “prove que você não é um robô”. Quando preencho a sequência de letras e números anti-spam do blogspot, é claro que não me contenho em fazer cara estranha e voz metalizada - por mais idiota que seja imitar voz de robô enquanto se digita.

Impossível tolher a imaginação: fico torcendo para errar o código e voltar uma mensagem dizendo: “você errou, você é um robô”.

É bem possível que eu seja e não saiba. Meu celular é um android. Para entrar no computador, preciso código de acesso. Saco grana com cartão magnético e biometria da mão. Para checar e-mail, informo usuário e senha. Blog, senha. Facebook, senha. Em casa, só o micro-ondas não exige senha. Por enquanto.

A vida é robotizada nas rotinas. Com o mesmo ringtone, o celular desperta às seis e quinze da manhã todo dia. Aperto um botão para calar a valsa, sento na cama, tomo um gole de água, tateio em busca dos óculos e levanto para tarefas automáticas. No meio deste passo a passo, alguns estalos de pescoço é tudo que tenho para provar que sou feita de ossos e tendões.

Pense bem, o que somos no engarrafamento se não robôs em movimento inconsciente e mecanizado? Primeira - freia – neutro – primeira – freia - neutro. Soldados que aguentam as agruras com nervos de aço. No ônibus, um passinho à frente, por favor. Ficamos parados em filas em modo loading, cumprimos a burocracia das repartições públicas. Céus, ouvimos campanha eleitoral sem jogar laranjas! Movimentos pacíficos, apáticos e pré-programados. E no fim aquele sorrisinho simpático-metálico, que é mais politicamente moderno do que o amarelo.

Então, prove que não é um robô.

 

19/08/2012

Dia mundial da Fotografia



REFLEXÃO

Fotografia é um pedaço estático de realidade.

Se a vida não fica parada para um clique automático,
por que registramos
o simples instante
como uma eterna verdade?















15/08/2012

Dia internacional da informática

tecla 
 
F5
Atualiza-me
com novos dados e tempos
Conta-me o que tens feito
nos últimos dez meses
Lembro apenas que era Natal
quando dei um control-alt-del.


02/08/2012

Olimpíadas 2012 - entre Micos e Gorilas...


"Antes de aprender a técnica, aprende-se a etiqueta; antes de praticar as artes marciais, pratica-se a moral." (ditado popular das artes marciais).


Impressionante o paradoxo das condutas olímpicas.


A judoca húngara Abigel Joo lesionou-se hoje durante a luta das quartas de final em que ganhava da americana Kayla Harrison. Que wazari, um wazarão! A americana não perdoou a vulnerabilidade da adversária e focou na perna lesionada. A húngara aos pedaços, metade atleta, metade gorila, não se entregou. Como um bruce lee guerreiro, lutou até a morte - mancando, gemendo, pulando num pé só, derramando dor sobre o tatame. Caiu de pé. Pé manco, mas de pé.

Foi então para a luta de repescagem contra a polonesa. Ainda machucada, mancou e chorou mas não se entregou. A força agora era espiritual. Perdendo e urrando de dor, agarrou-se com as duas mãos na fé da superação. Faltando 27 segundos para o fim do combate, surpreendeu a todos aplicando o uchi-mata mais bonito do dia – jogou a polonesa de costas no chão e ganhou a luta por ippon. Só pode ter sido benção do lendário dragão chinês.


Muda o bairro de Londres.


Na quadra de Badminton, a favoritíssima dupla de chinesas Xiaoli Wang e Yang Yu, número 1 do mundo nesse esporte, já classificadas, erravam saque de propósito, jogavam a peteca pro mato, cortavam na rede como se fossem minha avó, e não como donas do ouro olímpico de 2008. Isto tudo para pegar um confronto mais fácil na próxima fase. Já estavam classificadas e jogavam para perder, manipulando o resultado em busca de um caminho tranquilo (leia-se, sem luta) rumo à final. Corpo-mole estratégico das moças. Um desrespeito ao esporte e a quem pagou para ver. O lendário dragão chinês não perdoou a falta de ética desportiva e expulsou as chinesas da competição olímpica. Saíram vaiadas, anunciando aposentadoria, decepcionando o mundo.

 
Em lágrimas de vergonha, a dupla Wang-Yu despediu-se com um verdadeiro mico chinês.

 
Em lágrimas de dor, Abigel carregava seu gorila húngaro no corpo e encaminhava-se para a disputa de um bronze - que lhe valia ouro.

07/03/2012

Dia Internacional da Mulher

PARADO XX O


Que mulher somos?
um dia certo no mês de março
e um ano todo para cuidar dos nossos
olhos, filhos, afetos, trabalhos e desmaios
ao longo do calendário


Que mulher nos resta de brinde
ou contingência
ou garantia
ou ganância


malabarista, puritana, ativista
madame, mundana
cansada
erudita, cibernética, espiritual
whisky sem gelo ou chá de jasmim


Que mulher tocou pra mim, afinal -
a que abraça o mundo ou a de mãos atadas?

Que mulher somos?
assopramos feridas
viramos de ponta cabeça
reviramos lixo
com DNA maiúsculo de bicho
e um H pra lá de humano.

 
 

27/02/2012

FELIZ ANO NOVO!

bebê varrendo 

Volto quando o país todo volta à vida urbana séria: depois do Carnaval. Quarta-feira nada, a engrenagem começa sempre na segunda. Como a dieta do Garfield.

Tive um semestre de recesso no BichoBlogue, que, por ser hobby, tem que se acomodar depois das prioridades de trabalho e família. Ficou tudo muito apertadinho… então, a pausa. O bicho tem fome mas sabe esperar quietinho.

Tenho razões justificáveis para o recesso: entre tudo, passei arrumando a casa. Era preciso. Em julho de 2011 ganhei o mais belo presente da vida: uma nova filha. As circunstâncias do “parto” envolveram tristezas, mas ela chegou linda e saudável. Com 13, prontinha da silva. Nosso “bebê” tinha um leve ar de fragilidade envolvendo a alma forte. Uma vontade de estar em paz e a perseverança necessária para ir em frente. Já sabia caminhar firme. Logo tomou conta do espaço, da família, do clima, do destino. Capacidade de ser feliz vem de berço, o resto é construção. Ela teve uma mãe que a soube educar impecavelmente e amar com intensidade. Agora tem um pai que saberá conduzi-la com amor rumo à independência. Nesse cenário, estarei junto costurando a história. Foi um privilégio mágico que a vida deu. Estamos todos felizes. Tem irmã nova no pedaço.

E eu, mãe de trigêmeos adolescentes, praticamente, vou tentar ser frequente por aqui. Se não der, é por conta de alguma necessária pausa pra varrer a casa. Sempre que a barra tiver limpa, eu volto.

Desejo um feliz ano a todos! 

Para este reinício, publico um poema meu aprovado no último concurso Crônica e Literatura: prêmio literário Ferreira Gullar 2011.

 

 ponte

TRAVESSIA

Não tenha medo da tristeza - não é ponto de partida nem lugar de destino

Não é ninho, não é clausura

Nem é parte do corpo da gente

 

Tristeza é só uma ponte - com paisagem obscura.

Aponte o dedo para frente

e atravesse sorrindo

 

Estamos sempre de passagem pela loucura.